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Élysée Reclus

sexta-feira, 3 de julho de 2026

“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão” – pensando uma (geo)cosmografia escrita e inscrita na luz do SER-TÃO macaubense

Wagnervalter Dutra Júnior 

UNEB/GeMarx/GPECT

Introdução

 

Falar em nuvens implica olhar os céus. Em alguma medida ao longo do progresso das sociedades humanas, as descobertas inscritas na evolução das forças produtivas e das relações de produção, associada às descobertas pela ciência das leis da física, significou que falar em nuvens implica olhar também para baixo, da janela de um avião.

Quando ainda habitávamos as cavernas, o que deve ter passado pela cabeça dos nossos ancestrais ao olhar para cima e ver aquilo que parece algodão, todavia só para nós, pois eles ainda não conheciam a planta da qual muitas das nossas roupas foram feitas; e enxergar aquelas formas que se mudam, se movimentam, tem uma dinâmica e são portadoras de uma incrível capacidade de nos fornecer algo que é fundamental para a existência e manutenção da vida, a água.

Talvez esses mesmos ancestrais também, como nós, tenham enxergado nas nuvens muitas das formas que nos circundam. A bem da verdade nós herdamos isso deles. A pareidolia é um fenômeno psicológico natural do cérebro humano que imprime formas familiares como rostos e animais a estímulos visuais imprecisos e aleatórios (sobre a pareidolia ver: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-algumas-pessoas-enxergam-desenhos-nas-nuvens/ e https://www.cnnbrasil.com.br/saude/voce-ve-rostos-em-nuvens-ou-em-objetos-entenda-o-fenomeno/).

O cérebro humano, como parte de sua evolução, busca e interpreta padrões com rapidez e objetiva estabelecer esses padrões como marcadores ou parâmetros estabelecidos na convivência da reprodução cotidiana e das relações estabelecidas para tal; para sobreviver como espécie. Para identificar semelhantes e predadores esses padrões estabelecer-se-iam; nessa medida “confundir uma corda com uma cobra” é parte desse aprendizado profundo que lentamente a evolução gravou em nosso DNA, com a mediação desses antepassados como uma espécie de “cobaia” do ambiente.

Ao refletirmos sobre as duas formas de ver a nuvem, por baixo ou de um avião, da qual ainda estamos presos como objetividade social, como sociabilidade, significou que o domínio da técnica implicou uma relação e uma perspectiva da natureza distinta da dos primeiros ancestrais, que jamais poderiam imaginar o dia de ver a nuvem por cima dela mesma; como Zeus do Olimpo, sobre as nuvens, a olhar, julgar e castigar os mortais. Nuvem que na mitologia é uma ninfa (Nefele), filha do Oceano e Tétis, por vezes usada por Zeus para, ao imprimir a ela formas diversas, enganar os mortais como fez com Íxion (https://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0239). Para nosso deleite podemos contemplá-la dessas duas formas, pois somos a marca de que o universo pode se tornar (auto)consciente, e, como espécie, a única conhecida capaz de ser e registrar-se como essa consciência. Fomos agraciados pelo acaso das circunstâncias, arranjos e probabilidades de condições inorgânico-orgânicas e físico-químicas bem específicas, e, por tal razão, pudemos ser um evento autoconsciente chamado vida.

 

 

Se no passar de bilhões de anos desde o Big Bang, o universo tivesse evoluído de forma diferente, ou mesmo apenas a nossa galáxia, ou se um único evento cósmico e geofísico tivesse afetado a história da vida na Terra, nós não estaríamos aqui para contá-la. Os asteroides e cometas que colidiram com a Terra, assim como tantos outros desastres cataclísmicos que ocorreram no decorrer de bilhões de anos de evolução da vida, forjaram criaturas capazes de sobreviver num ambiente sempre em transformação [...] a vida que existe num planeta é definida pela história do planeta e vice-versa – a história do planeta depende da vida que nele habita (Gleiser, 2024, p. 16 -17).

 

O físico brasileiro Marcelo Gleiser, em O despertar do universo consciente – um manifesto para o futuro da humanidade, sinaliza a interação entre o inorgânico e o orgânico da vida em relação ao que significam para a história do planeta, pois sem a interação entre bactérias primitivas e o ambiente não haveria a atmosfera tal qual a conhecemos, com seus 21% de oxigênio.

Caso esse número fosse maior, poderíamos enfrentar combustão espontânea e outros tipos de problema que o oxigênio em excesso poderia causar problemas para muitas espécies. “A história da vida na Terra conectam todas as criaturas que existiram e existem, incluindo a nossa espécie, a uma bactéria que viveu cerca de 3 bilhões de anos: um micróbio, a verdadeira Eva” (Gleiser, 2024, p. 17). A vida, conclui o físico, é rara no universo, especialmente a vida multicelular, somos um evento sublime. A interação entre o inorgânico e o orgânico supracitado pode ser bem delimitada na passagem a seguir.

 

Muitos cientistas propõem a ideia de que os primeiros organismos do planeta habitavam fontes hidrotermais no oceano profundo e, portanto, eram provavelmente extremófilos adaptados a altas temperaturas (denominados termófilos). Estudos moleculares de termófilos modernos indicam que estes organismos apresentam ramificação profunda na árvore filogenética, evidenciando a hipótese de seu surgimento na Terra primitiva. No registro fóssil encontramos evidências de organismos datadas de aproximadamente 3,5 bilhões de anos atrás. Estes microfósseis encontrados na Austrália apresentam uma estrutura celular muito semelhante aos procariontes modernos e é provável que estes organismos respirassem enxofre ao invés de oxigênio, uma vez que os altos níveis de oxigênio na atmosfera só surgiriam mais tarde na história da Terra, há 2,4 bilhões de anos [...] Os responsáveis por este evento chamado de grande oxigenação foram os procariontes denominados cianobactérias, que realizavam fotossíntese e como produto, emitiam altas concentrações de oxigênio na atmosfera. O oxigênio é extremamente tóxico para as células e os organismos que não possuíam a maquinaria necessária para metabolizá-lo foram extintos. Alguns procariontes que não conseguiam metabolizar o oxigênio adotaram uma estratégia que iria alterar o rumo de toda a diversidade de vida na Terra: eles englobaram para dentro de sua célula uma outra bactéria capaz de processar o oxigênio tóxico para eles. E em troca, ofereciam abrigo e proteção para esta bactéria. Este evento revolucionário na história evolutiva da vida, denominado endossimbiose, deu origem aos primeiros organismos eucariontes do planeta (Pellizari & Bendia, 2026)

 

E todo esse processo é uma magnífica evolução da matéria, pois, como ensinou Carl Sagan e outros importantes físicos, biólogos, químicos e astrofísicos, somos, como matéria, herdeiros desse espetacular forno cósmico que é o interior das estrelas, por isso a expressão de que “somos poeira de estrelas”.

 

Do universo, da luz e das nuvens: (fóton)grafias

 

O conhecimento sobre o universo é uma construção feita ao longo de muitos anos, e, assim como é da natureza do conhecimento científico em geral, o conhecimento a respeito do universo em sua origem e evolução ainda está em aberto, se construindo. Isso não implica que o conhecimento que temos a respeito do mesmo pode ser desprezado ou é desprezível; apenas sinaliza novas leituras a respeito do universo, a exemplo da cosmologia quântica, cujas equações e teses divergem em alguns pontos das equações classicamente utilizadas nessa empreitada; sobremodo a respeito do que se pode refletir para além do big bang.

Depois do evento inicial a evolução do universo e da matéria é conhecida e cientificamente experimentada, seja a partir de experiências ou observações diretas, seja mediada por equipamentos munidos de tecnologia mais avançada; seja a partir de grandes estruturas construídas para o estudo da evolução da matéria desde os tempos primeiros, como os grandes colisores edificados para tal intento.

O físico teórico Carlo Rovelli, em seu livro A realidade não é o que parece: a estrutura elementar das coisas; resgatando a desconfiança de Einstein de que o universo era estático, e a posterior dissuasão que o físico alemão teve em relação a essa ideia de um cosmos estático, alertado pelo padre belga Lemâitre. Por essa razão Einstein iria abandonar a sua constante cosmológica, formulada a partir da pressuposição dessa estaticidade, todavia, esse mesmo sacerdote convenceu-o mais uma vez de que “[...] a constante cosmológica não torna o Universo estático, mas pode muito bem existir do mesmo jeito, e não há motivo para eliminá-la” (Rovelli, 2017, p. 200). Rovelli (2017) complementa sinalizando que a constante cosmológica produz uma aceleração da expansão do universo, recentemente medida.

É amplamente aceito na física que o universo era denso e quente na expansão que hoje estudamos e conhecemos, nosso big bang, como a própria autoconsciência desse universo, e, quando a física teórica chegou a essa elaboração, a partir dos conhecimentos de Einstein e da mecânica clássica, e retornou pra compreender de fato algo para além do big bang, ao retroceder no tempo percebeu o aumento da densidade e da temperatura até atingir a escala Planck, justo há 14 bilhões de anos. Nesse ponto, as equações da relatividade geral não mais respondem, deixam de ser válidas; aqui não é possível deixar de lado a mecânica quântica e a gravidade quântica (Rovelli, 2017).

Contudo, o presente texto não chegará a discutir a partir da mecânica e da gravidade quânticas, mas convém ressaltar o que Rovelli (2017) pondera, demonstrando a força de repulsão, que repele o elétron de ser tragado pelo núcleo do átomo como fundamental para a estruturação da matéria – no modelo da mecânica clássica, o elétron caindo em linha reta em um núcleo seria por ele engolido e desapareceria, o que impediria a estabilidade da matéria tal qual a conhecemos hoje –, “[...] é como se houvesse uma força repelente de natureza quântica que afasta o elétron quando este se aproxima demais do núcleo. Graças à mecânica quântica a matéria é estável” (p. 202), e se ela não existisse os elétrons cairiam no núcleo e não teríamos os átomos e tampouco nós mesmos.

O mesmo acontece com o universo, como alerta o autor (Rovelli, 2017). Imagine esse universo contraindo-se absurdamente e ficando infinitamente pequeno, esmagado pelo seu próprio peso. Conforme as equações de Einstein esse universo se esmagaria ao infinito até desaparecer em um ponto, como o elétron tragado pelo núcleo.

Todavia, levando em conta a mecânica quântica, aprende-se que o “[...] universo não pode se esmagar além de uma quantidade máxima. É como se houvesse uma força quântica repelente que o faz ricochetear” (Rovelli, 2017, p. 203). Aqui o autor aponta que um “[...] Universo em contração [aqui vemos claramente o embrião da ideia de multiverso] não afunda em um ponto, mas ricocheteia e recomeça a se expandir como se emergisse de uma explosão cósmica” (Rovelli, 2017, p. 203). Nosso universo, por exemplo, pode resultar de um colapso de outro universo anterior.

Assim, o que a mecânica quântica coloca para todos nós é a possibilidade de irmos para além do big bang, todavia, vamos nos ater no presente texto à história do nosso universo conhecido, do qual Rovelli (2017) assim traça um quadro:

 

Hoje as confirmações do fato de que, em um passado distante, o Universo foi extremamente quente e compacto, e a partir de então se expandiu, se acumulam. Temos condições de reconstruir detalhadamente a história do Universo desde um estado inicial quente e comprimido. Sabemos reconstruir como desse estado inicial se formaram os átomos, os elementos, as estrelas, as galáxias e o Universo como o vemos hoje. Em 2013, as observações sobre a radiação que preenche o Universo realizadas pelo satélite Planck mais uma vez confirmaram plenamente a teoria do big bang. Hoje, portanto, conhecemos com razoável certeza aquilo que aconteceu em grande escala no nosso Universo nos últimos 14 bilhões de anos, desde quando era uma bola de fogo quente e densa (Rovelli, 2017, p. 201)

 

Vamos passear por um pouco dessa história. Toda a matéria, todo espaço-tempo e toda energia do universo conhecido estavam aprisionados em um volume menor que 1 trilionésimo do tamanho do ponto final dessa frase. Esse pontinho, infinitamente menor que qualquer ponto final de qualquer frase, regia-se por condições muito quentes e as forças naturais que o descreviam coletivamente eram unificadas, esse cosmo, ainda não se sabe bem a maneira, expandiu, naquilo que hoje conhecemos como Big Bang (Tyson, 2017).

Um universo em expansão, estruturados por partículas subatômicas e energia na forma de fótons (‘condutores sem massa de energia luminosa que são tanto ondas como partículas’; e se fez a luz, os fotógrafos agradecem) incessantemente configurando a matéria em interação (Tyson, 2017).

Tyson (2017) prossegue observando que o universo era suficientemente quente para que esses fótons convertessem sua energia em pares de partículas de matéria e antimatéria, que imediatamente depois se aniquilavam, devolvendo sua energia aos fótons, tudo previsto na equação de Einstein (E=mc²). Antes, durante e depois que as forças nucleares eletrofracas e fortes se separaram, o universo era uma sopa agitada de quarks, léptons e seus irmão da antimatéria, juntamente com bósons, estas últimas, por sua vez, permitem as interações entre as demais partículas.

Estas conformam as partículas elementares da matéria que se recombinará e caminhará, como as nuvens, livres ao sabor dos ventos evolutivos. E por qual razão, diante de estonteante beleza misteriosa do universo, podemos falar em acaso? Em 2002, uma equipe de físicos do Laboratório Nacional de Brookhaven, em Long Island, Nova York; descobriu esse estado da matéria inicial como um caldeirão de quarks, em mais um passo para compreender quem somos e de onde viemos.

 

Fortes evidências teóricas sugerem que um acontecimento bem no princípio do universo, talvez durante uma das divisões de forças, dotou o universo de uma marcante assimetria, na qual partículas de matéria superavam por pouco as partículas de antimatéria: de 1 bilhão e uma para 1 bilhão. Essa pequena diferença na população dificilmente seria notada por alguém em meio à contínua criação, aniquilação e recriação de quarks e antiquarks, elétrons e antielétrons (mais conhecidos como pósitrons), neutrinos e antineutrinos. Aquela partícula ímpar tinha muitas oportunidades de encontrar alguém a aniquilar, assim como todas as outras (Tyson, 2017, p. 18)

 

É preciso questionar sobre o papel dessa partícula ímpar para o cosmos, por isso convém perguntar o que veio depois. Importa destacar também uma relevante questão, na medida em que o tempo passava o universo se expandia e resfriava (como previsto pelas leis da física).

Tyson (2017) destaca a partir dessa expansão e resfriamento que esse universo “[...] morno não era quente ou denso o suficiente para cozinhar quarks, então todos eles escolheram parceiros de dança, criando uma nova família permanente de partículas pesadas chamadas hádrons” (p. 19). O resultado dessa transição dos quarks aos hádrons foi o surgimento de prótons e nêutrons, que habitam todos os átomos de toda matéria que existe no universo. Aquela leve assimetria entre matéria e antimatéria que afetava a sopa de quarks-léptons, do início da expansão do universo, transferiu-se para os hádrons, todavia gerando consequências fenomenais, conforme Tyson (2017).

O autor destaca, ao passo que o universo continuou a esfriar, a disponibilidade de energia para criação de partículas básicas baixou, os fótons que emergiram perderam energia para o universo em expansão, ficando abaixo do limite para criar pares hádron-anti-hádron. Peço perdão ao leitor que até aqui pode suspeitar da linguagem técnica do texto, ao que lhe dou total razão, todavia estamos chegando ao ponto em que o presente escrito objetiva chegar, para daí alçarmo-nos às nuvens. Acompanhemos Tyson (2017) um pouco mais nessa odisseia.

 

Para cada bilhão de aniquilações – deixando seu rastro de 1 bilhão de fótons -, um único hádron sobrevivia. Esses solitários acabariam ficando com toda diversão: funcionando como fonte fundamental de matéria para criar galáxias, estrelas, planetas e petúnias [...] Sem o desequilíbrio [a assimetria] de 1 bilhão e um para 1 bilhão entre matéria e antimatéria, toda a massa no universo teria se autoaniquilado, deixando um cosmos feito de fótons e mais nada – o cenário radical de faça-se a luz. (Tyson, 2017, p. 20)

 

Aqui é possível perceber que, em razão de uma assimetria na divisão entre as forças, energias e partículas originárias em algum momento do caminho do tempo como universo; a matéria da qual tudo é feito, inclusive a luz, a fotografia (escrita dessa luz), a poesia, a arte, o escrito, o lugar, as nuvens, pôde vir à tona. Para a nossa sorte, essa assimetria originária ou fundante permitiu que a luz dividisse seu espaço com outras formas de matéria e energia no universo, que evoluindo pode chegar a ser o universo autoconsciente como humanidade.

O universo segue resfriando-se, todavia, por 380 mil anos pouco aconteceu, os elétrons corriam livremente entre os fótons, sem maiores acontecimentos. Até que a temperatura chega abaixo de 3 mil Kelvin, (esta última, unidade de medida de temperatura), que equivale à metade da temperatura na superfície do Sol. Nesse ponto, todos os elétrons livres se combinam com núcleos, deixando para trás um rastro de luz visível, gravando no céu um registro de onde, naquele momento, estava toda a matéria e completando a formação de partículas e átomos do universo primordial (Tyson, 2017).

As galáxias se formaram, com elas a estrelas. Estas últimas, por seus processos químico-físicos internos, como um reator de átomos, uma ‘fornalha de átomos’, foi gerando outros elementos químicos de toda a matéria existente em qualquer ponto do universo; que foram a esse universo distribuídas devolvidas – no momento em que essas estrelas explodiam e espalhavam o conteúdo do seu núcleo.

Todo arranjo e combinação que se seguiram permitiram a vida da exata forma que ela é. Nas suas combinações, recombinações, do simples ao complexo, e daí ao mais complexo, a matéria foi nos presenteando com tudo que há ao nosso redor, do afeto à consciência. Tudo isso graças à poeira das estrelas – “Somos apenas poeira de estrelas trazidas à vida” (Tyson, 2017, p. 26) – e à gentileza da luz em permitir dividir a existência com matéria diversa dela mesma. O universo tolera o diverso, a diversidade, como parte de sua própria criação. Criação que nos fez chegar à atmosfera terrestre, à água na forma de vapor e às nuvens.

O presente texto objetiva uma reflexão conjunta com e a partir da obra fotográfica de Marcelo Vaz, eminente fotógrafo macaubense, cujos primeiros passos, começa nos levando desde sempre a olhar os céus, com a fotografia de mais de 140 espécie de aves registradas; aportou a todos nas nuvens do centro sul baiano, do lugar de onde, fincado os seus pés, nos presenteia com um olhar sobre o mundo. Seja nos pequenos pássaros, nos maiores, ou mesmo nas nuvens, também de diferentes tamanhos. O portfólio do ensaio denomina-se Presságio. Presságio que significa um sinal, indício ou mesmo um pressentimento relativo a um acontecimento futuro.

As nuvens tem imenso significado para o sertanejo, divide com ele a esperança de dias melhores. Dias melhores se dão com água em abundância, e há 3 bilhões de anos, como parte dessa história de sermos forjados na poeira das estrelas, as nuvens começaram a se formar. Nuvens sem as quais não saberíamos como se conformaria a dinâmica hidrológica do planeta. Nuvens armazenam a água que permite a vida. Por essa mesma razão nos lembra Marcelo Vaz:

 

No sertão, costuma-se dizer que o tempo está bonito quando o céu se cobre de nuvens pesadas; é nesse prenúncio que a esperança se renova, pois as chuvas se anunciam. Essas nuvens não são apenas massas flutuantes, mas portadoras de vida, símbolos de renovação que transformam a aridez em fertilidade, tal como nas veredas descritas por Guimarães Rosa, onde cada elemento carrega um universo de significados (Vaz, Presságio, 2026).

 

As nuvens estão localizadas na primeira camada da atmosfera, a troposfera. É nessa primeira camada onde “[...] todas as plantas e animais vivem e respiram, contém três quartos (75%) de todas as moléculas de ar e 99% de todo o vapor d’água da Terra” (Tyson & Walker, 2026, p. 19).

O clima da Terra em sua quase totalidade ocorre nessa primeira camada mais densa, a troposfera. Tyson e Walker (2026) dimensiona o tamanho dessa primeira camada: de 6 a 20 quilômetros acima da superfície da Terra, dependendo da latitude e estação do ano. Ainda observam que, em razão do aumento médio da temperatura da Terra, essa camada ganha quase 60 metros por década. Ao nível do mar, na base da troposfera, a temperatura média global é de 15° C atualmente (convém salientar que sem a atmosfera terrestre, com a sua composição específica de gases, a vida na Terra não seria possível, pois tal efeito garante essa temperatura média global ao nível do mar) . No topo, onde a troposfera encontra a estratosfera, a temperatura é de – 57° C.

As demais camadas estruturais de gases da atmosfera compreendem: a estratosfera, já citada e a camada superior. Ayoade (1996) destaca que a troposfera (onde os fenômenos climáticos e as nuvens ocorrem) e a estratosfera formam a atmosfera inferior. A atmosfera superior começa na estratopausa (zona isotérmica da parte superior da estratosfera), terminando onde a atmosfera se funde com o espaço exterior. São reconhecidas as seguintes camadas da atmosfera superior: a mesosfera, onde a temperatura alcança – 90° C aos 80 quilômetros de altura; a termosfera é a próxima camada, onde a temperatura aumenta em razão da absorção da radiação ultravioleta pelo oxigênio atômico; e a exosfera, estendendo-se a uma altitude que vai de 500 a 750 quilômetros da superfície terrestre. A atmosfera não tem um limite superior exato, todavia, conforme elucida o autor, ela vai se tronando rarefeita de forma progressiva e mais rápida em seu contato com o espaço exterior.

As nuvens, situadas na troposfera, são “[...] agregados de gotículas d’água muitíssimo pequenas, de cristais de gelo, ou de uma mistura de ambos, com sua base bem acima da superfície terrestre” (Ayoade, 1996, p. 149). Por essa razão o sertanejo se alegra com as nuvens densas, que são, por seu turno, fartura de alimento, colheita, afeto, reprodução. Como aquela que acontece silenciosa nas serras de Macaúbas, em que a produção do Buriti ainda é cultura e valor de uso. Sem nuvens, tudo isso seria inviável. Sem a companhia das mesmas, o sertanejo não teria quem o acompanhasse diante do deserto verde e solitário escondido no significado do agronegócio, da mineração ou mesmo do envenenamento das nossas terras e águas.

Com essa esperança, Marcelo Vaz, em seus Presságios, aprendeu e ensinou a todos que,

 

[...] fotografar as nuvens no sertão é contar uma história de esperança, de espera e de renascimento. É celebrar o valor das nuvens não apenas como fenômenos meteorológicos, mas como símbolos da contínua dança entre o visível e o invisível, entre o efêmero e o eterno. E é nessa contemplação que encontro inspiração para continuar explorando e compartilhando essas imagens que, tal como a poesia, falam diretamente ao coração (Vaz, 2026, p. 3).

 

O visível e invisível do espectro eletromagnético, do qual enxergamos apenas uma faixa dessa luz, o que nos permite ver e registrar a escrita da luz, inscrita na longa história da explosão e da dança dos fótons, aos hádrons, aos elétrons e prótons, aos átomos e aos fornos das estrelas. A luz infravermelha, por exemplo, não pode ser vista, a sentimos como calor.

Retornando às nuvens, e ao projeto expográfico Presságio, apresenta-se como núcleo narrativo da distribuição das obras a seguinte proposição: o núcleo I denomina-se A vigília, focado na vastidão do horizonte e na paciência do olhar sertanejo; no núcleo II, O chamado, aparece a fé como elo entre a terra e o cosmos; o núcleo III figura como O acúmulo, momento em que o céu se torna físico, denso e monumental; por fim o núcleo IV nomina-se A renovação, que expressa o clímax cromático e a celebração da promessa cumprida.

Na vigília apresenta-se a história como herança dos antepassados cujo desenvolvimento milenar, conforma a nossa forma de ver e se relacionar com as nuvens enquanto sertanejos e sertanejas. No chamado a fé que não se desespera, pois aprendeu que a água sempre chega, mesmo que castigue em alguns anos, seja com a demora ou a quantidade. Apesar de que no nordeste, nem as nuvens escaparam da política, pois a seca foi convertida numa indústria de voto atrelada a um discurso falacioso e determinista natural. O problema da água é um problema de acesso, pois a mesma – e talvez também as nuvens –, como tudo que habita a existência sob o capital, converte-se em propriedade privada – e mercadoria.

O acúmulo, como momento em que o céu se torna físico, denso e monumental inscreve-se na longa jornada que nos levou da assimetria (de 1 bilhão e um e 1 bilhão) aos hádrons e destes ao átomo, ao núcleo das estrelas, aos elementos químicos e à densidade dessa mesma matéria, como nuvem. Por fim, a beleza de uma atmosfera com uma história de bilhões de anos e uma composição química específica, que permite esse clímax cromático, essa variação da reação da luz ao atravessar as nuvens como renovação. O céu fica denso, as nuvens carregadas; daí para o clímax, a precipitação; é daqui para ali. As nuvens assim atravessadas tem suas formas, que a ciência estudou e classificou.

São dois critérios os utilizados para classificar as nuvens: 1) quanto ao aspecto, estrutura e forma ou aparência da nuvem; e 2) quanto à altura na qual a nuvem ocorre na atmosfera. Em relação ao primeiro critério (estrutura, forma, aspecto), temos os seguintes tipos principais de nuvens: a) nuvens cirriformes, com aparência fibrosa; b) nuvens estratiformes, que se apresentam em camadas; e as c) nuvens cumuliformes, que aparecem empilhadas (Ayoade, 1996).

Quanto ao segundo critério (altura da ocorrência da nuvem na atmosfera) podemos identificar as nuvens baixas, médias e altas; variando conforme a latitude. As nuvens altas nos trópicos ficam acima de 6.000m; nas latitudes médias acima de 5.000m e nas altas latitudes acima de 3.000m. As nuvens médias estão situadas nos respectivos intervalos latitudinais: nos trópicos 2.000m a 7.500m; nas médias 2.000m a 7.000m e nas altas 2.000m a 4.000m. Independente da latitude as nuvens baixas estão sempre abaixo dos 2.000m (Ayoade, 1996).

As nuvens também podem ser classificadas de acordo com seus modos de origem, isto é, de acordo com o movimento vertical que gera a condensação. Essas categorias amplas são um total de quatro: 1) nuvens produzidas por uma elevação gradual do ar numa depressão; 2) nuvens produzidas por convecção térmica; 3) nuvens produzidas por convecção forçada, isto é, turbulência mecânica; e 4) nuvens produzidas por ascensão de massas de ar sobre uma barreira montanhosa (Ayoade, 1996, p. 151). 

Imagem: Classificação dos tipos de nuvens.



Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/nuvens.htm. Acesso em 13 de jun. 2026.

 

As nuvens podem aparecer em variadas aparências e estruturas, também influenciadas por seus modos de origem. A nebulosidade define-se pela proporção de nuvens de qualquer tipo que cobrem o céu no momento. A medida é chamada okta, por fazer referência a essa cobertura de quantidade de nuvens igual à área de um oitavo do céu dentro do campo de visão do observador (Ayoade, 1996). Nebulosidade que agrada ao sertanejo para além desse okta, pois é a vida e a continuidade da reprodução que está na água das nuvens.

 

Para não concluir...

 

Devemos a fotografia aos fótons e como evoluíram formando o espectro da radiação que captamos e permite o visível para nós. A luz escreve-se quando se inscreve na história de uma partilha de espaço – que a própria luz cedeu ao outro de si como matéria distinta. Uma cosmografia e uma geografia das luzes como matéria, forma, cor, imagem, poesia, estética, fotografia e esperança em dias melhores.

O sertanejo macaubense me ensinou a nunca olhar o céu, senão como poesia. E a fotografia é o registro da poesia da Luz. Obrigado a todos os sertanejos e, em especial, nesse texto, a um deles; Marcelo Vaz, que nos presenteou com muita poesia escrita e inscrita na Luz emanada de sua câmera.

 

Referências

 

AYOADE, J. O. Introdução à climatologia para os trópicos. Ed. Rio e Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

 GLEISER, M. O despertar do universo consciente: um manifesto pelo futuro da humanidade. 2° Ed. Rio de Janeiro: Record, 2024.

 PELLIZARI, V. H. & A. G. BENDIA. A origem da vida na Terra. Disponível em: https://www.io.usp.br/index.php/ocean-coast-res/29-portugues/publicacoes/series-divulgacao/vida-e-biodiversidade/807-origem-da-vida-na-terra.html. Acesso em 13. Junho 2026.

 

ROVELLI, C. A realidade não é o que parece: a estrutura elementar das coisas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

 SAGAN, C. Cosmos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

TYSON, N. D. Astrofísica para apressados. São Paulo: Planeta, 2017.

TYSON, N. D. & WALKER, L. N. Ao infinito e além: uma jornada de descobertas cósmicas. Rio e Janeiro: Record, 2026.

P.S.: esse texto foi escrito a pedido de um amigo, Marcelo Vaz, fotógrafo macaubense que aprendeu desde sempre a olhar para os céus.

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